Você carregou o processo inteiro no Claude. O que acontece até a próxima petição?
Entre receber os autos e entregar uma minuta, a IA precisa localizar documentos, confrontar versões e conferir o que escreveu. Entenda o harness, a estrutura que permite organizar esse trabalho.
Você abre o Claude, anexa o processo e escreve: “Atuo pela parte autora. Prepare a próxima petição”.
O pedido cabe em uma linha. O trabalho que ele pressupõe é bem maior. É preciso entender em que momento o processo está, identificar o que motivou a manifestação, separar as alegações das partes, encontrar os documentos relevantes e decidir o que pedir. Só então vem a redação.
Uma resposta pode impressionar pela fluência. A minuta tem endereçamento, fatos, fundamentos e pedidos. Mas a pergunta que interessa ao advogado é outra: como o sistema chegou àquela peça?
Ele encontrou a última decisão? Percebeu que um documento foi juntado depois da contestação? Tratou uma alegação da parte contrária como se fosse um fato comprovado? Conseguiu voltar aos autos para conferir uma afirmação?
É nesse percurso entre o pedido e a entrega que aparece o harness: a camada de software que organiza o acesso do modelo às informações, às ferramentas e aos resultados do próprio trabalho.
Um processo inteiro e uma tarefa específica
Imagine uma ação de cobrança. O advogado da parte autora recebe uma intimação para se manifestar sobre documentos apresentados pela ré. Entre eles, há um comprovante que a defesa descreve como prova de pagamento.
O advogado reúne os autos e pede ajuda para preparar a manifestação.
Este é um exemplo hipotético. Vamos usá-lo para explicar como um sistema agêntico poderia organizar a tarefa, sem presumir que qualquer conversa no Claude execute automaticamente todas essas etapas. Os recursos disponíveis dependem do produto e das ferramentas habilitadas.
A primeira entrega útil seria identificar a tarefa com precisão: qual documento provocou a intimação, o que a decisão pede e quais questões continuam abertas.
Se o sistema começar a escrever antes de esclarecer isso, poderá produzir uma peça bem redigida que responde à pergunta errada.
O que o harness faz nessa história
O modelo interpreta o material e propõe os próximos passos. O harness fornece os meios para que esses passos aconteçam: consultar um arquivo, buscar um trecho, receber o resultado e continuar o trabalho.
A documentação de ferramentas da Anthropic descreve essa interação: o modelo solicita uma operação; a aplicação executa a ferramenta e devolve o resultado, que pode orientar a decisão seguinte. Fonte: uso de ferramentas com Claude.
No nosso exemplo, o percurso poderia ser:
Localizar a intimação → abrir os documentos mencionados → confrontá-los com a cobrança → identificar dúvidas → preparar a minuta → conferir suas afirmações.
Cada descoberta pode mudar o próximo passo. Ao ler a defesa, o sistema encontra uma referência a um comprovante. Ao abrir o comprovante, percebe que precisa consultar o contrato. Ao consultar o contrato, identifica uma informação que exige confirmação do advogado.
A utilidade está nessa capacidade de investigar antes de concluir.
Do comprovante à pergunta certa
Suponha que, neste cenário, o comprovante apresente um valor diferente do cobrado e uma descrição que não permita identificar claramente a obrigação a que se refere.
Isso não autoriza concluir, por si só, que o pagamento é irrelevante. Também não basta para aceitar que a dívida foi integralmente quitada.
Um trabalho útil tornaria a dúvida visível:
A ré afirma que o comprovante demonstra a quitação. O documento registra uma transferência, mas sua relação com a obrigação discutida precisa ser esclarecida. A minuta deve distinguir a existência da transferência da conclusão de que ela extinguiu a dívida.
Para chegar a esse ponto, o sistema precisaria confrontar documentos. O comprovante informa uma coisa; a defesa atribui a ele um significado; o contrato e os demais elementos dos autos ajudam a examinar essa interpretação.
Essa separação é central no trabalho jurídico. “A ré alegou”, “o documento registra” e “podemos sustentar” cumprem funções diferentes. Uma minuta que transforma tudo em uma narrativa única pode esconder justamente a controvérsia que o advogado precisa enfrentar.
A solução, nesse exemplo, começa com um quadro claro do problema e das fontes que permitem examiná-lo.
Carregar tudo não encerra o problema do contexto
O envio do processo inteiro pode transmitir a sensação de que todas as informações estarão igualmente disponíveis durante toda a tarefa.
A engenharia de contexto trata justamente da seleção e da organização do material apresentado ao modelo. A Anthropic descreve estratégias em que o agente mantém referências aos arquivos e consulta o conteúdo conforme a necessidade, em vez de depender apenas de um grande bloco de informação. Também ressalta que ampliar o contexto não garante, por si só, melhor desempenho. Fonte: engenharia de contexto para agentes.
Aplicado ao nosso cenário, isso sugere organizar o trabalho em torno de documentos identificáveis: a decisão que motivou a manifestação, a petição da ré, o comprovante, o contrato e as peças anteriores relevantes.
Um resumo pode ajudar a navegar. Para sustentar uma afirmação na minuta, porém, o sistema precisa conseguir voltar à fonte.
Também precisa apontar o que não conseguiu examinar. Uma página ilegível ou um anexo ausente deve aparecer como pendência. “Não localizei no material consultado” tem um alcance diferente de “isso não existe nos autos”.
A estratégia entra antes da redação
Mesmo depois de organizar os documentos, o sistema pode precisar de informações que o processo não contém.
O cliente reconhece a transferência? Existe outra relação contratual entre as partes? Há documentos ainda não juntados? Qual orientação o advogado pretende adotar diante da informação encontrada?
Nesse momento, uma pergunta objetiva pode ser mais valiosa que vários parágrafos de fundamentação.
No exemplo, o sistema poderia apresentar os pontos encontrados e pedir a confirmação necessária antes de fechar a tese. O advogado decide como tratar a possível relação entre a transferência e a cobrança. A redação passa a seguir essa orientação expressa.
Isso também torna a revisão mais simples: fica visível quais conclusões vieram dos documentos, quais informações foram fornecidas pelo profissional e quais escolhas orientaram a peça.
A minuta precisa vir acompanhada do caminho de conferência
Depois da orientação do advogado, o sistema prepara o texto. A entrega ganha valor quando permite conferir suas afirmações sem refazer toda a investigação.
No nosso cenário, a minuta poderia vir acompanhada de:
- referências aos documentos que sustentam as afirmações sobre o processo;
- indicação dos pontos que dependem de confirmação do cliente;
- distinção entre argumentos da defesa e fatos documentados;
- pendências que precisam ser resolvidas antes de finalizar a peça.
Se houver pesquisa de jurisprudência, surge outra verificação: o precedente existe, foi consultado e sustenta a proposição para a qual está sendo usado? Os autos e a pesquisa jurídica são fontes distintas. Explicamos essa diferença em de onde vem a jurisprudência que a IA cita.
Dizer “conferi as referências” oferece pouca informação. Mostrar quais fontes foram consultadas e onde cada uma sustenta o argumento permite ao advogado avaliar o trabalho.
Revisar também exige voltar aos autos
A revisão pode começar por perguntas concretas: a peça atende ao objeto da intimação? A descrição do comprovante corresponde ao documento? Alguma frase apresenta como certo aquilo que continua controvertido? Os pedidos decorrem da argumentação desenvolvida?
Um sistema com as ferramentas adequadas pode ser organizado para retornar às fontes durante essa etapa. Ainda assim, uma segunda leitura feita por IA pode repetir o erro da primeira. O que torna a revisão útil é a confrontação com os documentos e com critérios explícitos.
Essa é também a preocupação por trás das práticas que discutimos em por que a IA inventa e como reduzir o risco.
No caso hipotético, uma boa entrega seria uma minuta que enfrentasse o documento apresentado pela ré, preservasse a distinção entre transferência e quitação e expusesse as confirmações ainda necessárias. A qualidade estaria na adequação ao problema e na possibilidade de conferir o raciocínio.
Como pedir esse trabalho
O advogado pode tornar sua expectativa mais clara desde o início:
Atuo pela parte autora. Quero preparar uma minuta de manifestação sobre os documentos apresentados pela ré, considerando a intimação anexada.
Antes de redigir, identifique o objeto da manifestação e os documentos relevantes, indicando onde estão. Separe as alegações de cada parte do que os documentos efetivamente mostram. Aponte lacunas, trechos ilegíveis e informações que preciso confirmar.
Apresente uma proposta de estrutura e as perguntas necessárias para definir a abordagem. Depois da minha orientação, redija a minuta e indique as fontes das afirmações factuais. Não inclua jurisprudência sem uma fonte verificável.
Esse pedido organiza a colaboração. Sua execução continua dependendo do acesso aos documentos e das ferramentas disponíveis. Uma instrução para conferir fontes só pode ser cumprida se o sistema tiver meios de consultá-las.
Antes de usar autos reais, também é necessário verificar se o ambiente escolhido é adequado ao tratamento daqueles documentos e às exigências de sigilo do caso.
O que merece impressionar
Ao carregar um processo no Claude, é natural prestar atenção à velocidade com que surge uma petição. Mas o trabalho mais valioso pode acontecer antes: localizar o ato relevante, perceber uma inconsistência, formular uma pergunta ao advogado e recuperar o documento que permite esclarecê-la.
O harness é a estrutura que permite organizar esse percurso. Sua qualidade aparece no acesso às fontes, na continuidade da investigação, na exposição das pendências e nos meios de conferir a entrega.
Para o advogado, o resultado desejável é uma minuta que possa revisar com fundamento: sabendo de onde vieram as afirmações, quais decisões orientaram o texto e o que ainda precisa resolver antes de assinar.